terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Igreja de São José

End.: Av. Pres. Antônio Carlos, s/n
Bairro: Centro
CEP: 20020-010
Tel.: 2533-4545

Em 1608, havia no local onde hoje é a Rua da Misericórdia, esquina da Rua São José, uma pequena ermida, construída de pau e barro, de cobertura modesta, onde o povo católico do Rio de Janeiro venerava o Patriarca São José. Contando com inúmeros devotos que não mediam sacrifícios em favor de sua crença, o pequeno templo foi, paulatinamente, melhorando as suas humildes instalações, substituindo as paredes de barro por grossos muros de pedra, armando altares, proporcionando, enfim, maior conforto a todos os que ali buscavam uma esperança de salvação ou uma palavra de fé. E, num espaço de tempo relativamente curto, em lugar da acanhada ermida, erguia-se por fim, uma grande igreja, que chegou a ser uma das mais suntuosas do velho Rio de Janeiro.

Não se sabe, ao certo, a data em que foi fundada aqui a devoção de São José, nem os nomes dos seus fundadores, e nem, tampouco, se antes de 1608 havia no local da ermida um oratório público. Todos os documentos pertencentes ao arquivo da Irmandade foram perdidos durante o saque que sofreu a cidade em 1711, levado a efeito pelas tropas de Duguay-Trouin, que tudo destruíram. Nem os templos foram poupados à sanha dos assaltantes. Tudo foi revolvido, pilhado, roubado pelo bando de malfeitores que aqui aportara.
Sabe-se, no entanto, que em 1608, já existia a capela de São José, e isso de modo seguro, através de documentos e processos que, embora estranhos ao templo, trazem citações, datas e fatos a ele referentes. Assim, pode ser considerada como verdadeira a asserção de que a Irmandade de São José, se não é a mais antiga, é, pelo menos uma das primeiras instituídas no Rio de Janeiro, por isso que data do princípio do século 17.

A cidade do Rio de Janeiro, desenvolvia-se rapidamente. Em 1575, em 19 de julho, o Papa Gregório XIII, atendendo ao pedido formulado pelo rei Dom Sebastião, de Portugal, elevava o Rio de Janeiro à categoria de Prelazia, tornando a cidade, por esse ato, independente da jurisdição espiritual da Bahia.
Como se sabe, havia no Morro do Castelo, hoje demolido, a Igreja de São Sebastião, que gozava das regalias de Matriz do Rio de Janeiro, pois em 1659, Dom Pedro Leitão, Bispo do Brasil com residência em Salvador, criara naquele outeiro carioca a freguesia da Sé, a primeira, aliás, que teve esta cidade. A devoção de São José, nesse tempo, já tinha incontáveis fiéis, e o seu templo era procurado com mais freqüência do que o do Castelo, principalmente por ser mais accessível. As visitas ao morro eram mais difíceis e mais penosas, e o povo compreendia que o culto a Deus poderia ser prestado em qualquer templo. Daí a preferência em assistir aos ofícios religiosos na ermida de São José.
Dessa forma, já em 1659, era reduzido o número de fiéis que procuravam a Igreja de São Sebastião, que, assim, jazia num meio abandono. Por outro lado, a Sé, não resistindo ao passar do tempo, estava quase em ruínas, e a Câmara, a quem cabia a obrigação de repará-la, confessava ao Governador da cidade a sua impossibilidade de atender a este dever, em virtude da falta de recursos pecuniários.
A situação era angustiosa. E a única solução que no momento ocorreu ao prelado, Dr. Manoel de Souza e Almada, foi transformar em Sé a ermida de São José.
Essa atitude, no entanto, foi recebida com desagrado pela Irmandade que não desejava de modo algum ter em seu meio elementos que não se recomendavam à sua simpatia; e o prelado não era bem quisto entre os componentes daquela congregação.
Esse fato tomou vulto, os ânimos se exacerbaram, surgiram ameaças do prelado, promessas de revide da parte contrária, e até a Câmara foi convocada a intervir no assunto. Da discussão, por fim, acordaram todos em que devia ser enviada uma representação ao rei, em Lisboa, relatando o caso, e pedindo solução definitiva à dissensão. E assim foi feito.
Despachada a carta a Dom Afonso VI, este logo mandou a resposta: – ordenava peremptoriamente que a Sé continuasse no Castelo!
Tranqüilizou-se, assim, a cidade, e a Irmandade de São José tornou à paz em que sempre vivera.

No princípio do século 19 a igreja de tão danificada, ameaçava ruir. Impunha-se, portanto, com urgência, que se cuidasse da sua reconstrução.
Em 1806, reunidos os irmãos, ficou resolvido que, havendo algum recurso guardado, se procedesse imediatamente ao levantamento de um novo templo. Em sessão de Mesa, de 25 de janeiro e de 21 de junho de 1807, foi aprovada a planta da igreja que viria substituir a antiga ermida, e que ainda hoje é admirada como uma expressão de arte do seu tempo.
Iniciando a obra, teve lugar a solenidade da colocação da urna com os documentos relativos à edificação. Assim, do lado do evangelho, no interior da parede do arco cruzeiro, o Vigário Inácio Pinto da Conceição, juntamente com vários irmãos e outros sacerdotes, depositavam uma caixa de chumbo contento o desenho do templo, uma moeda de ouro no valor de Rs. 6$400, uma de prata de Rs. $640, e uma de cobre de Rs. $040. Transcrevemos a seguir o documento referente ao levantamento da igreja:
– “Governando a Suprema Igreja Católica Romana o Santíssimo Papa Pio VII no VIII ano de seu Pontificado: Reinando na Monarquia portuguesa a Fidelíssima Rainha D. Maria I, Nossa Senhora, por seu Filho o Príncipe Regente, N. S. D. João: sendo Bispo deste Bispado Excelentíssimo e Reverendíssimo D. Joseph Caetano da Silva Coutinho, Capelão-mor da Casa Real: E Vigário desta freguesia o Reverendo Ignácio Pinto da Conceição: Servindo de juiz na nossa Irmandade o irmão Tenente-Coronel Joaquim Ribeiro de Almeida, e de Secretário, Tesoureiro, Procurador, Assistentes e irmãos de Mesa os abaixo assinados: Por resolução das Mesas conjuntas de 13 de julho de 1806 e 26 de janeiro de 1807, acordaram, a custa dos rendimentos da dita Irmandade, reparar as ruínas, e aperfeiçoar as antiguidades deste templo, fundado em nove braças de terreno na frente com os fundos até o mar, na Rua Direita do Carmo para a Misericórdia, por doação, que no ano de 1608 fez Ilustríssimo Dom Luiz de Almeida, sendo governador nesta capitania, confirmada pelo memorável Senhor Rei Dom João IV.
Em 9 de janeiro de 1751 foi criada a terceira freguesia nesta capital. Para assim constar se faz o presente padrão em perpétua memória na reedificação e construção da Igreja dedicada à Gloria e Veneração de São Joseph, pela devota irmandade, na Capital do Reino de Portugal, no Rio de Janeiro, aos 22 do mês de Dezembro do ano de MDCCCVIII. E eu, João Lopes da Silva Couto, secretario atual da dita Irmandade, o fiz escrever e assinei”.
As obras do novo templo, que tiveram para sua ajuda, além das dádivas espontâneas do povo, oito loterias (cada uma com 8000 bilhetes) concedidas pelo governo real, terminaram em 1824, tendo sido em 10 de abril desse ano inaugurado o edifício com toda a solenidade.



Logo à entrada, à esquerda, está localizado o batistério, onde milhões de infantes têm recebido o sacramento instituído por Cristo. Ao correr das paredes, os altares dos santos, entre os quais se destacam os de N. S. das Dores, do Sagrado Coração de Jesus, de N. S. do Amparo, de São Miguel e das Almas, todos artisticamente decorados, tendo ao pé a imagem do Cristo crucificado. Há ainda nos muros laterais os quadros representativos da Via Sacra, pintados caprichosamente, encimados todos por um feixe de lâmpadas elétricas. Do teto, pendentes, ricos lustres de metal. As cortinas que enfeitam o templo são de damasco de seda, de cor vermelha, com franjas douradas.
Dominando o altar da capela-mor, iluminada por dois lustres com 21 lâmpadas, a imagem do Padroeiro, em grande tamanho, chama logo a atenção de quem entra no templo. É um soberbo trabalho, modelado carinhosamente, de fisionomia doce e olhar suave, espargindo misericórdia. No braço esquerdo o Menino-Deus, e à direita o lírio – símbolo da castidade. Essa imagem de São José, protetor da família universal, deve ser a maior entre todas as existentes nos vários templos da cidade.
No centro da nave, os bancos para o povo que procura ouvir na igreja a palavra divina, através dos seus ministros.
A Irmandade possui preciosas alfaias, cortinas, e outros ornamentos, que tornam ainda mais atraente aquele venerável santuário.
Por trás do altar-mor há um grupo de imagens magníficas. É como se fosse uma reconstituição dos últimos momentos de vida de São José. Vê-se ali o glorioso Patriarca, já velhinho, deitado num leito simples, tendo, ao seu lado, compungidos, a Virgem Maria e Jesus. Qualquer pessoa que ali vá pela primeira vez, fica vivamente impressionado com aquela visão de absoluto realismo, tal a expressão das imagens expostas.
Na sacristia, que é simples e confortável há, entre os dois arcazes de jacarandá lavrado, um altar sobre o qual pousa uma outra imagem de São José, vinda de Paris, em 1884, e oferecida à Irmandade pelo Comendador José Pinto de Oliveira. Nas paredes da sacristia estão colocados retratos pintados a óleo, do Padre João Procópio da Natividade e do Monsenhor Dr. Benedito Marinho, grande orador sacro, que exerce o cargo de Vigário da Igreja de São José desde 19 de maio de 1912.

Há nas duas torres do templo um carrilhão famoso; os seus sinos são reputados os mais sonoros do Rio de Janeiro. Valem, só eles, por toda uma grande orquestra em que figurassem todos os instrumentos. Em dias festivos lançam nos ares, fazendo-se ouvir a longínquas distâncias, não somente o som do seu bronze magnífico – mas músicas inteiras habilmente executadas. Assim é que já ouvimos cheios de entusiasmo, o belo hino do Brasil, a “Marselhesa”, e ainda outras marchas patrióticas que despertam sempre sentimentos de amor, de fé e de civismo.
  Fotos: Ariel Carvalho
Texto: Blog RememorArte

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