segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mensagem do Papa pelo dia das Comunicações

Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital 

Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião do XLV Dia Mundial das Comunicações Sociais, desejo partilhar 
algumas reflexões, motivadas por um fenômeno característico do nosso tempo: 
a difusão da comunicação através da rede internet. Vai-se tornando cada vez 
mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma 
mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de 
produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação 
operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças 
culturais e sociais. As novas tecnologias estão mudando não só o modo de 
comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que 
estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir 
informações e conhecimentos, está nascendo uma nova maneira de aprender e 
pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir 
comunhão. 
Aparecem em perspectiva metas até há pouco tempo impensáveis, que nos 
deixam maravilhados com as possibilidades oferecidas pelos novos meios e, 
ao mesmo tempo, impõem de modo cada vez mais premente uma reflexão 
séria acerca do sentido da comunicação na era digital. Isto é particularmente 
evidente quando nos confrontamos com as extraordinárias potencialidades da 
rede internet e a complexidade das suas aplicações. Como qualquer outro fruto 
do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser 
postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas 
sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e 
unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano. 
No mundo digital, transmitir informações significa com frequência sempre maior 
inseri-las numa rede social, onde o conhecimento é  partilhado no âmbito de 
intercâmbios pessoais. A distinção clara entre o produtor e o consumidor da 
informação aparece relativizada, pretendendo a comunicação ser não só uma 
troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica 
contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada 
primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações 
positivas. Por outro lado, isto colide com alguns limites típicos da comunicação 
digital: a parcialidade da interação, a tendência a comunicar só algumas partes 
do próprio mundo interior, o risco de cair numa espécie de construção da autoimagem que pode favorecer o narcisismo. 
Sobretudo os jovens estão a viver esta mudança da comunicação, com todas 
as ansiedades, as contradições e a criatividade própria de quantos se abrem 
com entusiasmo e curiosidade às novas experiências da vida. O envolvimento 
cada vez maior no público areópago digital das chamadas Redes Sociais, leva 
a estabelecer novas formas de relação interpessoal, influi sobre a percepção 
de si próprio e por conseguinte, inevitavelmente, coloca a questão não só da 
justeza do próprio agir, mas também da autenticidade do próprio ser. A 
presença nestes espaços virtuais pode ser o sinal de uma busca autêntica de 
encontro pessoal com o outro, se se estiver atento para evitar os seus perigos, como refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou  expor-se 
excessivamente ao mundo virtual. Na busca de partilha, de “amizades”, 
confrontamo-nos com o desafio de ser autênticos, fieis a si mesmos, sem ceder 
à ilusão de construir artificialmente o próprio “perfil” público. 
As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos 
confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um 
novo mundo de potenciais amizades. Esta é uma grande oportunidade, mas 
exige também uma maior atenção e uma tomada de consciência quanto aos 
possíveis riscos. Quem é o meu “próximo” neste novo mundo? Existe o perigo 
de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o 
risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e 
absorvida por um mundo “diferente” daquele onde vivemos? Temos tempo para 
refletir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que 
sejam verdadeiramente profundas e duradouras? É importante nunca esquecer 
que o contato virtual não pode nem deve substituir  o contato humano direto 
com as pessoas, em todos os níveis da nossa vida. 
Também na era digital, cada um vê-se confrontado com a necessidade de ser 
pessoa autêntica e reflexiva. Aliás, as dinâmicas próprias das Redes Sociais 
mostram que uma pessoa acaba sempre envolvida naquilo que comunica. 
Quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a 
sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais. Segue-se daqui que 
existe um estilo cristão de presença também no mundo digital: traduz-se numa 
forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro. 
Comunicar o Evangelho através dos novos midia significa não só inserir 
conteúdos declaradamente religiosos nas plataformas dos diversos meios, mas 
também testemunhar com coerência, no próprio perfil digital e no modo de 
comunicar, escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes 
com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele. Aliás, 
também no mundo digital, não pode haver anúncio de uma mensagem sem um 
testemunho coerente por parte de quem anuncia. Nos novos contextos e com 
as novas formas de expressão, o cristão é chamado de novo a dar resposta a 
todo aquele que lhe perguntar a razão da esperança que está nele (cf. 1 Pd 3, 
15). 
O compromisso por um testemunho do Evangelho na era digital exige que 
todos estejam particularmente atentos aos aspectos  desta mensagem que 
possam desafiar algumas das lógicas típicas da web. Antes de tudo, devemos 
estar cientes de que a verdade que procuramos partilhar não extrai o seu valor 
da sua “popularidade” ou da quantidade de atenção que lhe é dada. Devemos 
esforçar-nos mais em dá-la conhecer na sua integridade do que em torná-la 
aceitável, talvez “mitigando-a”. Deve tornar-se alimento quotidiano e não 
atração de um momento. A verdade do Evangelho não é algo que possa ser 
objeto de consumo ou de fruição superficial, mas dom que requer uma resposta 
livre. Mesmo se proclamada no espaço virtual da rede, aquela sempre exige 
ser encarnada no mundo real e dirigida aos rostos concretos dos irmãos e 
irmãs com quem partilhamos a vida diária. Por isso permanecem fundamentais 
as relações humanas directas na transmissão da fé! Em todo o caso, quero convidar os cristãos a unirem-se confiadamente e com 
criatividade consciente e responsável na rede de relações que a era digital 
tornou possível; e não simplesmente para satisfazer o desejo de estar 
presente, mas porque esta rede tornou-se parte integrante da vida humana. A 
web está contribuindo para o desenvolvimento de formas novas e mais 
complexas de consciência intelectual e espiritual,  de certeza compartilhada. 
Somos chamados a anunciar, neste campo também, a nossa fé: que Cristo é 
Deus, o Salvador do homem e da história, Aquele em quem todas as coisas 
alcançam a sua perfeição (cf. Ef 1, 10). A proclamação do Evangelho requer 
uma forma respeitosa e discreta de comunicação, que estimula o coração e 
move a consciência; uma forma que recorda o estilo  de Jesus ressuscitado 
quando Se fez companheiro no caminho dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 
13-35), que foram gradualmente conduzidos à compreensão do mistério 
mediante a sua companhia, o diálogo com eles, o fazer vir ao de cima com 
delicadeza o que havia no coração deles. 
Em última análise, a verdade que é Cristo constitui a resposta plena e autêntica 
àquele desejo humano de relação, comunhão e sentido que sobressai 
inclusivamente na participação maciça nas várias Redes Sociais. Os crentes, 
testemunhando as suas convicções mais profundas, prestam uma preciosa 
contribuição para que a web não se torne um instrumento que reduza as 
pessoas a categorias, que procure manipulá-las emotivamente ou que permita 
aos poderosos monopolizar a opinião alheia. Pelo contrário, os crentes 
encorajam todos a manterem vivas as eternas questões do homem, que 
testemunham o seu desejo de transcendência e o anseio por formas de vida 
autêntica, digna de ser vivida. Precisamente esta tensão espiritual própria do 
ser humano é que está por detrás da nossa sede de verdade e comunhão e 
nos estimula a comunicar com integridade e honestidade. 
Convido, sobretudo os jovens a fazerem bom uso da sua presença no 
areópago digital. Renovo-lhes o convite para o encontro comigo na próxima 
Jornada Mundial da Juventude em Madrid, cuja preparação muito deve às 
vantagens das novas tecnologias. Para os agentes da comunicação, invoco de 
Deus, por intercessão do Patrono São Francisco de Sales, a capacidade de 
sempre desempenharem o seu trabalho com grande consciência e escrupulosa 
profissionalidade, enquanto a todos envio a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, Festa de São Francisco de Sales, 24 de Janeiro de 2011. 

Papa Bento XVI 

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