quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

História da Procissão de São Sebastião no Rio de Janeiro

Procissão de São Sebastião, por Vieira Fazenda

Retirado do Site RememorArte
Paróquia de São Sebastião
Álbum Rio GPS
Na correção a que procedeu, em 13 de Setembro de 1749, o Ouvidor geral e corregedor da Comarca, o Dr. Francisco Antonio Berquó da Silveira Pereira, resolveu multar em vinte mil réis as pessoas da nobreza, que nomeadas pela Câmara, para pegarem nas varas do pálio e carregar o andor de São Sebastião na respectiva procissão, sem escusa se furtavam a esse dever, fazendo pouco caso do convite e causando graves transtornos à boa execução dessa solenidade. Entendia o referido doutor não ser lícito a qualquer pessoa desprezar a eleição que o Senado fazia para ocupações honoríficas. Daí ressaltam dois fatos: primeiro – e isso não sofre discussão, ser entre nós pecado velho a indiferença e a preguiça; segundo – ser a procissão, objeto destes apontamentos, cerimônia de importância, a que ligavam alto valor não só os poderes eclesiásticos, mas as Câmaras, os representantes do poder civil, os governadores e até os próprios reis.
Diz-nos o falecido Dr. Mello Moraes que só em 1625, por um acordo entre os homens bons do povo e por estar em decadência a confraria de São Sebastião, tomava a Câmara a si o cuidado de celebrar as festas do padroeiro da cidade. Entretanto, isso não nos parece, salvo melhor juízo, inteiramente exato, porque todos os Conselhos do Brasil eram obrigados a celebrar certo número de festas anuais, inclusive a de São Sebastião; e tratando-se no Rio de Janeiro de um santo a que a cidade devia o nome, e cujo patrocínio era evidente, os nossos antigos Conselhos municipais tomaram a si a tarefa de celebrar a comemoração do padroeiro, logo depois da fundação da cidade A procissão de São Sebastião é pois entre nós antiga, e conquanto muito tenha perdido de seu antigo esplendor, é ainda uma das tradições que, felizmente ainda hoje se conserva. Era o Santo saudado com honras militares.
Enquanto o préstito corria a cidade, dava a fortaleza do Castelo três salvas reais, correspondidas pelos navios ancorados, e era tal o estampido dos tiros que D. João V, em tempo do governador Luiz Vahia Monteiro e em virtude da reclamação dos moradores ordenou fossem as salvas dadas pela fortaleza de Santo Antonio, da ponta da ilha das Cobras!
Foi, principalmente, no tempo do príncipe regente, depois D. João VI, que tiveram o maior brilho a festa e a procissão de São Sebastião.
Por uso antiqüíssimo, a Câmara ordenava a iluminação da cidade, mas três noites de 17, 18 e 19 de Janeiro, começando às 8 horas e terminando às 10, ao som festivo dos repiques de sinos de todas as igrejas.
Partilhando da alegria da população e querendo honrar as tradições ligadas ao dia do santo padroeiro, D. João ordenou também luminárias em seu palácio e que no começo e fim da iluminação salvasse com 21 tiros a fortaleza da ilha das Cobras, e que isso se praticasse para o futuro.
O dia 20 de Janeiro era celebrado com grande pompa na Capela Real; além de vésperas e matinas solenes, havia missa pontifical, em que era oficiante o prelado, tomando parte nessa solenidade o Cabido, capelães e músicos da Real Capela, tendo a sua frente o insigne José Maurício, cujas composições magistrais, mais de 250, ainda hoje se conservam no arquivo da nossa Arqui-Catedral. A tudo isso assistia o Príncipe, depois, rei, com toda a devoção, bem como sua família, sentados em grande tribuna, situada do lado da Epístola.
A formatura de tropas, a presença dos fidalgos ricamente vestidos, de senhoras da mais alta nobreza, tudo dava a esse dia a importância de uma brilhantíssima comemoração. No oitavário saía solene procissão, indo como de costume o Santo à Sé Velha, no Castelo. As ruas asseadas e cobertas de folhagens de mangueiras e canela; nas janelas das casas, de onde pendiam colchas de cetim, seda e damasco, via-se o que de mais ilustre havia na cidade. Salvavam as fortalezas, e a tropa que acompanhava a procissão dava três descargas festivas ao sair e ao recolher. Em honra a D. João VI, seja-nos licito afirmar: o velho rei cercou sempre de toda a veneração a imagem do santo padroeiro da cidade que o hospedara nos dias mais felizes da sua vida, disse-o ele, com lágrimas nos olhos, quando por exigências da Política foi obrigado, em 1821, a deixar o seu querido Brasil, onde fora verdadeiro rei amado e venerado pelos seus – mais filhos do que súditos!Em 1809, concorreu à festividade o Senado da Câmara, incorporado com o seu estandarte, e o príncipe, além de haver marcado lugar distinto no templo, concedeu à corporação a honra de se assentar na sua Real Presença, como nos refere o padre Luiz Gonçalves dos Santos em suas Memórias do Reino do Brasil. Ao Evangelho, subiam à tribuna sagrada alguns dos mais distintos oradores brasileiros, com grande gáudio do príncipe, que declarava aos seus áulicos admirar-se de encontrar no Rio de Janeiro tanta eloqüência e tanta ilustração.
Não contente em dar a São Sebastião jóias preciosas, paramentos ricos, castiçais de prata, fê-lo Grã-Cruz da Ordem de Cristo, e escolheu o nome de Sebastião para o primeiro neto que lhe nasceu no Brasil, filho da infanta D. Maria Tereza e D. Pedro Carlos (mais tarde aqui falecido), e cujos restos mortais existem na capela da Conceição da igreja de Santo Antonio.
À procissão de S. Sebastião comparecia, como dissemos, o Senado da Câmara, levando o procurador dela o respectivo estandarte. Era este nos tempos coloniais de cor branca, tendo bordadas a coroa portuguesa, as armas da cidade e a imagem de São Sebastião. Depois da independência, o estandarte era de veludo verde, tendo de um lado as armas do Império bordadas a ouro e do outro ainda a imagem do Santo. A lança terminava em uma grande esfera armilar, rico trabalho de ourivesaria. E a propósito, onde parará esse pendão que figurou nos grandes dias da nossa pátria? Trajavam os vereadores casaca e calções de seda preta, capa e volta, meias brancas, camisas de bofes e punhos de renda, sapatos de fivela e chapéu meio desabado com plumas brancas preso por um laço de pedras preciosas.
Com o Império modificou-se o uniforme dos representantes da cidade, dando-se-lhes casaca verde bordada, colete branco, cinto e espadim, calças azuis agaloadas e chapéu armado. Como esse uniforme custava caro, só um ou outro vereador mandava fazê-lo, e poucos compareciam à procissão: daí vem que quase havia desaparecido o bom costume de se fazer representar a edilidade nessa cerimônia tradicional. Nos últimos tempos da monarquia era o estandarte da Câmara levado por um empregado da secretaria! Em 1896 cinco intendentes, amigos das tradições e da religião, resolveram em caráter particular acompanhar, sem distintivo algum, a procissão. Chegados à Arqui-Catedral foram convidados a pegar nas varas do pálio. Como recusar semelhante gentileza? Lá foram eles caminho do morro do Castelo, e na Sé Velha visitar também o túmulo de Estácio de Sá.
No dia seguinte vinha o mundo abaixo: os pobres edis eram acusados de sebastianismo e de infiéis à República. Podiam eles ser vistos juntos em palestra, na Rua do Ouvidor, nos teatros, em convescotes, em pândegas; mas acompanhar a procissão do padroeiro da cidade – que horror, que indecência!
Mas porque, perguntarão nossos leitores, a procissão tem lugar no dia 27 e não no dia 20, consagrado pela Igreja ao mártir advogado contra a peste, fome e guerra?Em nossos dias a procissão, saindo da Catedral, segue as ruas Primeiro de Março, Ouvidor, Ourives, Ajuda e ladeira do Seminário. Na frente três ou quatro guiões, as irmandades e ordens terceiras, o andor do Santo carregado por sacerdotes, grande número de devotos, o clero secular e regular, o pálio sob o qual o Sr. arcebispo leva o Santíssimo Sacramento e a cujas varas vão membros do Cabido. Muito povo e nada mais. Chegado o préstito à igreja dos Capuchinhos, entram pela porta principal, e sobem as confrarias por outra porta lateral, vindo cada uma para suas respectivas capelas.
Dá-nos plena resposta a determinação régia de 30 de Setembro de 1733, impressa por extenso no volume 1º do Arquivo municipal e expedida quando definitivamente o rei D. João V autorizou a mudança da catedral, do Castelo para a igreja da Cruz.
Diz esse documento: “e por que hé justo Se não perca totalmente a memória da antiga Cathedral e Igreja de São Sebastião Se conservará também esta, erigindo se nela uma Confraria do Senado para ter cuidado de Sua descencia com hum capellão… e no dia 27 de Janeiro de cada hum anno em que Se celebrar a outava da festa do mesmo Sancto Será obrigado todo o Cabido e Clero a Sim Secular, como Regular a fazer uma porcissão solene adita Igreja antiga a Cantar n’ella Missa depóes de haver cantado a Conventual e maés officios divinos na nova Cathedral Com a devida Solemnidade, Sem que esta se diminua, por se haver de cantar a outra Missa na Igreja antiga, ficando nesta forma transferida para o dia vinte e sete de Janeiro a Porcissão que hera costume fazerce no dia de S. Sebastião, e ao Bispo e Cabido recommendo que a menhã ou o dia todo da porssição seja de guarda”.
Minudências sobre o assunto e cerimonial postos em prática desde 1758 podem ser lidos na obra de Pizarro e de todos quantos o têm seguido. – Última nota: em 1752, o Dr. Juiz de Fora Antonio de Mattos Silva, corregedor da Comarca, no impedimento do ouvidor, o desembargador Dr. Manuel Monteiro de Vasconcellos, censurou à Câmara o excesso de despesa (3$300) que se fazia com a cera, que o Senado fornecia a quem acompanhava a procissão, e ordenou que se não desse cera a irmandades, ou confrarias, nem ainda a clérigos, só estando com sobrepeliz, nem a religiosos, salvo em ato de comunidade etc., para evitar despesas supérfluas, pois as rendas da Câmara diminuíam, e as despesas cresciam!
Ora, aí está um homem que, se ainda vivesse, teria o voto de muita gente para o lugar de intendente; pelo menos seria um excelente membro da Comissão de Fazenda do Conselho Municipal.
É uma simples pedra, sobre a qual têm passado mais de três séculos.Todos quantos em piedosa romaria acompanharem hoje a tradicional procissão de São Sebastião, não deixem de contemplar junto ao cunhal da antiga Sé o único monumento, que possuímos comemorativo da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Esse padrão, aí fincado pelos primeiros povoadores, simboliza, através dos tempos, a fé, o denodo, a perseverança, com que eles souberam cavar os alicerces desta hoje grande capital e lembrará sempre os memoráveis combates de Uruçumirim e Paranapuan.
Aos olhos dos Cariocas esse singelo marco deve ser objeto de muita veneração. Conservemo-lo para despertar em nossas almas as sublimes e santas sugestões do verdadeiro amor da pátria.
27 de Janeiro de 1902.
Fonte:
[VieiraFazenda1921] J. V. Fazenda, "Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro," Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. Tomo 86 Volume 140, p. 400, 1921.

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