sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Capela do Menino Deus completa 267 anos

Há exatos 267 anos, Jacinta de São José e sua irmã Francisca de Jesus Maria presenciaram a abertura da Capela do Menino Deus e sendo benta pelo Cônego Doutoral Henrique Moreira de Carvalho exatatamente no último dia do ano de 1743 (Dia de São Silvestre).

Aproveitamos para desejar a todos um ótimo Ano de 2011!!!

Para saber mais sobre a história da Capela do Menino Deus acesse o link http://capeladomeninodeus.blogspot.com/2010/08/historia-da-capela-do-menino-deus.html

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano Novo na Arquidiocese do Rio

A Arquidiocese do Rio terá uma programação especial para celebrar o Ano Novo. No dia 31, às 18 horas, o Arcebispo da cidade, Dom Orani João Tempesta, presidirá a santa missa na Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No mesmo dia, o Santuário Cristo Redentor do Corcovado realizará uma vigília ecológica pela paz. Segundo o Padre Omar Raposo, reitor do Santuário, rezar com essas intenções é muito importante, porque várias realidades integram-se no local: ecologia, fé e turismo. A celebração começará às 22h30, presidida por Dom Orani Tempesta, com a participação de fiéis, seminaristas e presbíteros.

— Fiéis têm subido, a cada ano, para rezar junto ao nosso Arcebispo, que presidirá uma missa e dará uma benção aos quatro pontos cardeais do planeta. Mais uma vez, ele convocará todos a olharem para o Cristo Redentor, disse o reitor do Santuário, Padre Omar Raposo.

Também será feito o anúncio solene sobre a comemoração dos 80 anos do monumento do Cristo Redentor, eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo Contemporâneo. Para destacar a importância do tema ecologia, os participantes receberão de brinde água coletada da Floresta da Tijuca. A vigília ecológica pela paz será transmitida ao vivo pela Rádio Catedral, pela Rede Vida de Televisão e terá cobertura da TV Web Redentor, da Arquidiocese do Rio.

Dia 1º de janeiro

No Dia Mundial da Paz, comemorado em 1º de janeiro, uma santa missa será celebrada às 10h, na Catedral de São Sebastião, presidida pelo pároco, monsenhor Aroldo Ribeiro.

No Santuário do Cristo Redentor, Dom Orani celebrará uma missa às 9h30. A primeira missa do ano, no Corcovado, será um momento de grande celebração:

— A santa missa terá uma motivação muito especial. Vamos orar pela paz. O povo brasileiro, o povo carioca, ao despertar para o ano de 2011, terá a oportunidade de levar seus pedidos ao Cristo Redentor, destacou Padre Omar Raposo. Para quem não puder ir, a celebração será transmitida ao vivo pela Rádio Catedral e pela Rede Vida de Televisão.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Capela fecha suas portas hoje!

Hoje, 29 de dezembro após a Missa das 17 horas, a Capela do Menino Deus fechará suas portas para reformas de pintura e manutenção interna e assim permanecerá até o dia 05/02/2011 quando será reaberta.

Desejamos a todos um Feliz Ano Novo!

sábado, 25 de dezembro de 2010

Fotos da Missa de Natal na Capela do Menino Deus

Na manhã desse sábado de Natal (25), Padre Sérgio Marcos celebrou a Missa de Natal na Capela do Menino Deus as 10 horas.

O Padre Sérgio fez a procissão de entrada carregando nas mãos a imagem do Menino Jesus sob uma chuva de pétalas de rosas e papel picado que foram jogados do coro pela Dona Marieta.

Logo no início da celebração, Padre Sérgio chamou a nova representante de nossa comunidade que nasceu a pouco a poucos dias para ser apresentada ao resto da comunidade.

Na homilia nosso Capelão e Pároco lembrou a humildade do nascimento de Jesus e a lindíssima narração do Evangelho de João.

Ao final da celebração, Izabel agradeceu a todos que ajudam de alguma forma no dia a dia de nossa Capela e desejou a todos um ótimo Natal.

Não podemos deixar de agradecer a Senhora Rita Nóbrega que mesmo estando lá em João Pessoa nos enviou um lindo conjunto de toalhas para ornamentar nosso altar especialmente para esse Natal.

Mensagem de Natal do Arcebispo do RJ

*Fonte: Portal da Arquidiocese do Rio

Soneto de Natal

Um homem, era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga.

Quis transportar ao verso doce e ameno,
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folfa branca,
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode o gesto seu.

E em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis
(Diz a história que o escritor compôs esse soneto após participal da Missa de Natal na Capela do Menino Deus)

MISSA DE NATAL NA CAPELA DO MENINO DEUS

A Missa da manhã de Natal (25/12/2010) será as 10 horas!
As fotos da Missa na Capela estarão disponíveis em nosso blog após o almoço.

A todos desejamos um Feliz e Santo Natal!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Especial de Natal (LINDO!)


Rio de Janeiro em 1588 – Um dia de festa

Apesar de estar trazendo, ao conhecimento de todos, alguns fragmentos históricos referentes ao Natal no Rio de Janeiro do século XIX, não poderia deixar de registrar a provável primeira grande festa de Natal do Rio de Janeiro colonial.

No dia de véspera, toda a Cidade se preparava para os festejos do dia 25 de Dezembro de 1588. Uma população de cerca de 770 habitantes, quase na sua totalidade urbana, ou seja, residindo nas poucas ruas abertas na Várzea da Cidade, e alguns gatos pingados nas três ladeiras de acesso ao Alto da Cidade, preparava-se para a grande festa, então preparada pelos Jesuítas. Havia-se marcado para o dia de Natal a inauguração da nova Igreja de Santo Inácio de Loyola, da Companhia de Jesus, erguida no alto da Colina que depois se chamou do Castelo. 

Igreja dos Jesuítas

1835 - O Natal de Debret

O magnífico artista Jean Baptiste Debret, que chegou no Rio de Janeiro em 1816, como um dos integrantes da histórica Missão Artística Francesa, foi talvez um dos primeiros a retratar as festas de Natal, na Cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1835.

Um garimpo mais dedicado poderá talvez nos revelar valiosos textos referentes às festas de Natal no Rio de Janeiro, em datas mais antigas, porém é quase certo que seja da sua autoria - com sua magnífica sensibilidade de registrar os nossos costumes – as primeiras imagens do Natal Carioca.

As festas do Natal e da Páscoa, sempre favorecidas no Brasil por um tempo magnífico, constituem épocas de divertimentos tanto mais generalizados quanto provocam mais de uma semana de interrupção no trabalho das administrações e nos negócios do comércio; o descanso é igualmente aproveitado pela classe média e pela classe alta, isto é, a dos diretores de repartições e dos ricos negociantes, todos proprietários rurais e interessados, portanto, em fazer essa excursão em visita às suas usinas de açúcar ou plantações de café, a sete ou oito léguas da capital.

Dão-se presentes no Brasil especialmente por ocasião das festas de Natal, de 1.º do Ano e de Reis. No dia de Natal e no dia de Reis, sobretudo, são de rigor os presentes de comestíveis, caça, aves, leitões, doces, compotas, licores, vinhos, etc. Costuma-se renovar na mesma época a roupa dos escravos, o que leva a conceder, em geral, gratificações aos subalternos.

Entretanto, entre as pessoas de bem, os presentes de um gosto mais apurado são mandados em bandejas de prata com toalhas de musselina muito finas, pregueadas com arte e presas com laços de fitas cuja cor é sempre interpretativa, linguagem erótica complicada pela adição engenhosamente combinada de algumas flores inocentes.

O desenho representa a entrega de dois presentes de importância diversa: o primeiro, carregado por três negros entrando por um portão, traz a carta de congratulações entre as garrafas de vinho do Porto; a apresentação do segundo, mais modesto e talvez galante, é confiada à inteligência da negra encarregada de entrega-lo num humilde rés-do-chão.

1844 - Um Natal inesquecível

Mesmo que sejam poucos os relatos da celebração do natalício de Jesus, em tempos remotos na Cidade do Rio de Janeiro, fora os fragmentos dos costumes do ano de 1856 (adiante), é certo que alguns poucos anos antes, em 1844, os habitantes do Rio de Janeiro, uns aterrorizados, quiçá pensando ser o fim do mundo, e outros, os mais devotos, imbuídos de infinita alegria, passaram o mais célebre Natal desde a fundação da Cidade do Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1565.

Em 25 de Dezembro de 1844, sonho e realidade se misturaram, quando no céu do Rio de Janeiro, dando vida aos poucos presépios montados em alguns lares mais privilegiados, surgiu a Estrela Guia – deu-se à aparição de um cometa, visível por duas longas horas. Trouxe luz para a Corte de D. Pedro II, em uma cidade em que a iluminação ainda dependia dos velhos candeeiros, acesos ainda pelo azeite de peixe.

1856 – O Natal: fragmentos históricos

No ano de 1856, a população do Brasil estava estimada em cerca de 7.677.800 habitantes. A população da Cidade do Rio de Janeiro era de aproximadamente 270 mil habitantes, dos quais cerca de 208 mil moravam nas freguesias urbanas.

Já nesse tempo festejavam com pompa e alegria a chegada do Natal e, naquela época as festas duravam duas semanas, de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro, e o dia 7, estava fadado sempre a ser o dia mais triste da vida das crianças.

Muitos dias antes do dia de Natal era grande a azafama; nesta boa cidade; era o tempo de mandar as festas aos parentes e amigos, e delles receber as êtrennes, como se dizia em fins do século XIX em linguagem alambicada.

Viam-se grandes bandejas de doces, carregadas por pretos e pretas, cestos de gallinhas, leitões, atroando os ares com seus grunhidos, perús amarrados com fitas encarnadas ou verdes, compoteiras de doces cobertas por guardanapos rendados.

Os escravos davam o cavaquinho para ser os portadores de festas. pois era certa a gorgeta mais ou menos gorda para o mata bicho.

Passados quarenta anos, em fins do século XIX, mais precisamente em 1896, os costumes já haviam mudado, e as festas tornaram-se mais baratas:

 Cifra-se na monomania das folhinhas, dos chromos e dos blocks, que se vendem nas lojas de papel, ou nos almanaques de anecdotas, vindos de França (os quaes, podem ser encontrados no Fauchon), nos marrons glacês, o sonho dos anjinhos de procissão, as nossas antigas amêndoas, já não têm cotação na praça.

Eis-nos em plena noite da missa do gallo. Ia uma balburdia pelas casas, havia uma inferneira pelas cozinhas, onde se preparava a ceia ou consoada para depois da missa e parte do jantar do grande dia.

É sabido pelos antigos, o que talvez ainda aconteça nos dias de hoje, 150 anos depois, de que quem menos se divertia eram os donos da casa, sempre cuidadosos para que não houvesse faltas, e gente da cozinha; eis porque nas aspirações de algumas crianças - segundo escreveu um antigo cronista em 1896 - de serem frades, pedestres, sacristãos, pedintes de almas; mas nunca serem cozinheiros.

Os Animais sacrificados


Que havia porco em casa sabia-o toda a vizinhança pelos protestos da victima prestes a morrer com uma certeira facada; jorrava o sangue cuidadosamente guardado para diversas petisqueiras.

As gallinhas mostravam~se tristes e abatidas, prevendo o proximo fim, taes quaes candidatos derrotados em eleições.

O perú, ao qual se tinha dado cachaça para tornar a carne mais macia, desconfiado de tanta esmola, preparava-se para o sacrificio, e bebedo como estava não devia sentir muito a passagem desta para outra vida.

AlIi a preta de confiança tractava do peixe, lá os moleques ralavam o côcco para o doce, negrinhas areiavam os talheres ou punham palitos no paliteiro. Aqui um preto velho aposentado depennava as galIinhas depois de um banho de agua fervendo, e mais além a mulata velha tirava os ossos ás mãos de vacca para fazer o apetitoso mocotó recheiado com ovos e farinha de trigo ( um verdadeiro quitute, desterrado dos cardapios ou menus dos nossos burguezes jantares).

Nem mesmo o Aragão


Nessa noite não se pregava olho. Das 10 horas em deante, depois do Aragão, começavam a repicar os sinos das egrejas, de maneira a ensurdecer.

Os sinos das igrejas do Rio de Janeiro, não só neste século XIX, mas nos anteriores sempre tiveram participação fundamental nos acontecimentos da cidade e na vida particular de cada indivíduo até meados do Século XIX, como bem lembro Sarthou.

Por ocasião das festas de Natal, nem mesmo o Toque do Aragão se fazia ser respeitado e, pela noite adentro, as algazarras se espalhavam pela cidade. Aragão foi o apelido dado a um dos mais populares sinos da Cidade Maravilhosa, instalado na Igreja de São Francisco de Paula, com 1m.04 de diâmetro, pesando 600 quilos, e fabricado no Rio de Janeiro, na oficina da rua de São Lourenço 44.

O nome se espalhou por aclamação popular, partindo de algum crítico gozador, pois trazia a memória do Desembargador Francisco Teixeira de Aragão, então Intendente de Polícia, que resolveu criar o toque de recolher, por edital de 03.01.1825. Às dez horas da noite no verão e às nove horas no inverno, ao bater insistente o sino da Igreja de São Francisco de Paula, por meia hora sem interrupção, todos os cariocas eram obrigados a se recolher. Nenhuma casa comercial podia funcionar.

Igreja de São Francisco de Paula
Grande festa no largo de São Francisco, em 1826
 – um ano após A criação do Toque de Aragão.


Artigo 6.º do Toque de Aragão

Fica proibido, depois do toque do sino, estar parado, sem motivo manifesto, nas esquinas, praças e ruas públicas, dar assobios ou outro qualquer sinal. Essa proibição se estende aos negros e homens de cor antes dessa hora, mas depois que anoitecer.

O Toque de Aragão foi praticado durante cinqüenta e três anos, sendo suprimido em 1878.

Assim, naquele Natal de 1856, e nos que lhe sucederam, nem mesmo o Toque de Aragão era o suficiente para afastar o povo de suas festas, da algazarra, das buzinas, das rodas de música, e outras tantas manifestações. Assim, depois das badaladas do Sino do Aragão, avisando a chegada do ponteiro de minutos, na casa dos 12, enquanto o das horas apontava com exatidão para o número dez, em toda a cidade, como se fosse um entoar de gozação, repicavam os sinos de todas as igrejas. Era dia de Natal.

Festa, Música e o Natal de Rua


As ruas iam-se pouco a pouco enchendo, e ás portas dos templos desde as 9 horas já havia devotos para pilhar logar, baseados no direito do primi capientis.

Os capadocios afinavam os cavaquinhos e violões. Os gaiatos atravessavam as ruas arremedando o cócôrocô dos galIos, e, de quando em vez, foguetes no ar annunciavam que estava perto a hora solenne.

As egrejas mais concorridas eram S. Francisco de Paula, Misericordia, S. José, Carmo, a Cathedral, Sancto Antonio, São Bento e Ajuda, e em tempos anteriores a capelIa do Menino Deus, em MatacavalIos, cuja historia poetica é contada em muitas paginas pelo Balthazar Lisboa .


  
As sete primeiras igrejas citadas acima, na ordem (fora a Ajuda).

A não ser algum rôlo de capoeiras, algumas cabeças quebradas, algumas navalhadas, o resto corria bem, e acabada a missa cada qual se recolhia á casa para comer, descançar e esperar o dia 25. Muitas vezes havia danças e cantatas, que; se prolongavam até de madrugada.

Não há uma descrição sobre a forma de ornamentação das ruas da Cidade, naquele ano de 1856; somente se fala da algazarra, das rodas musicais e do foguetório. No entanto, ao que parece, não existisse tal costume de se ornamentar os logradouros públicos e, se houvesse, certamente teriam retratado tal manifestação artística os grandes artistas da época, Debret, Ender ou Rugendas. Parece que tal costume somente aconteceu cerca de cem anos depois, em 1955, quando a Cidade do Rio de Janeiro entra para a história como uma das primeiras no mundo a criar a tradição do que chamavam de Natal de Rua, o que nada mudou com relação aos costumes atuais.

Alexandre Campos ao falar dos Natais de Rua, de cinqüenta atrás, assim define:

Defini-se como Natal de rua, a ornamentação colorida com lanternas, lâmpadas, enfeites típicos, das ruas, praças, casas comerciais, fachadas das residências particulares, por ocasião de Festa Magna da Cristandade. O Rio de Janeiro, foi a segunda cidade do mundo a ter um Natal de Rua, por volta de 1955.

É originário de São Paulo, onde foi criado pelo Barão Carlos Massei, que desde 1935, começou sozinho, uma campanha junto a particulares e autoridades, para que os logradouros públicos naquela cidade, fossem transformados em grandes presépios coletivos, e que se tornou realidade em 1953. Hoje, tal festa é universal.

O dia 25 de Dezembro
(voltando a 1856)

De manhã, abriam-se de par em par as portas dos oratorios, enriquecidos de obras de primorosa talha, onde se via deitado entre folhas verdes o menino Jesús, cercado de jarras de flôres e alIumiado por velas de cêra postas em castiçaes de prata, de vidro ou latão. Tudo isso era de um effeito magico.

Ceia, Melancia, e Família.

Era um sacrificio ser chamado para comer melancia, não dessas rachiticas, vendidas pelos ilhéos da Penha, mas verdadeiras melancias capazes de refrescar um batalhão e que custavam a modica quantia de quinhentos réis ! Ao jantar reuniam-se os parentes e adherentes, vinham de fóra e de longe os filhos e filhas casadas, todos se junctavam nesse dia solenne, em que se apertavam os doces laços da familia, essa cellula da vida social. Compareciam tambem os compadres e comadres, os amigos da peito e até á mesa dos patrões eram admitidos os caixeiros, que neste dia gosavam das honras de filhos da casa.

Contados! Só saiam tres vezes por anno: no Natal, na Gloria e na Paschoa ! Eram taes os costumes do tempo, em que os patrões, para tomar fresco no Passeio ou no largo do Paço. nunca levavam chapéo, para que os caixeiros não soubessem si elles ( patrões) estava perto ou longe !

Bons tempos em que a jaqueta era de rigor, e a gravata só usada por quem já tinha alguma cousa de seu. Pouco trabalhavam nestes dias os barbeiros. não por fôrça de postura municipal, mas por não terem tempo de ir á cara dos freguezes.

Iam tocar nas portas das egrejas em palanques ou coretos preparados.

As bandas militares nunca saiam para esse fim; era contra a disciplina. Quem não conhecia a musica dos barbeiros, aggremiação digna de um poema, e que desappareceu com o progredir da civilização ? Existiram dous typos dessa raça de heróes, dous ultimos Abencerrages que viviam alli na rua do Carmo, pacata e silenciosamente, contando aos posteros as suas brilhaturas não só na Musica. como nas sangrias e applicação de sanguesugas .
   
Presépios

E a visita aos presepes ? Os mais afamados eram os do Convento da Ajuda, o da ladeira de Sancto Antonio. tão bem descriptos ambos no romance de Macedo As Velhas de mantilha, e o do conego Philippe, na ladeira da Madre de Deus. Este teve a honra de ser visitado pelo rei d. João, o qual, como se sabe, gostava muito de festas de egreja e era inimigo de theatros; obrigado a ir a espectaculos. dormia a bom dormir e, de quando em vez, acordava estremunhado, perguntando aos cortezãos : já se casaram estes bebedos ?

Cesse agora o que a antiga Musa canta, para fallar do presepe do Barros, alli na rua dos Ciganos, presepe que foi a summa da arte, o Eldorado, o cumulo de tudo quanto havia de sublime, peripatetico e esplendoroso.

Imaginae em uma pequena loja de carpinteiro a cidade de Belém, onde nasceu o Christo, transformada em cidade moderna, construida em amphitheatro. com casas de janellas de grades de ferro, com vidraças de cutello, egrejas com torres e sinos, saloios e saloias dansando, gatos, cachorros, coelhos, pescadores, caboclos, jardineiros, toureiros hispanhóes, anjinhos de barriga para baixo, pendurados no tecto recamado de estrellas de papelão dourado. O sol e a lua ao mesmo tempo no horizonte, e no meio do firmamento uma grande estrella d'alva, cujos raios guiavam caravanas de camelos, que faziam parte da comitiva dos tres reis magos, que pareciam vir descendo com ar serio e magestoso de uma montanha collocada no fim do panorama. Tudo isso allumiado por velas que saiam de castiçaes pregados no meio das ruas, onde existiam lampeões de gaz só para inglez ver.

Havia tambem no centro um tanque pequeno d'onde jorrava a agua de um repuxo e onde peixinhos vermelhos saracoteavam de um lado ,para outro .

Via-se em uma lapinha deitado o menino Jesús, tendo perto de si S. José; Nossa Senhora e S. João Baptista, bois, cavallos, porcos, sapinhos e até leões - uma verdadeira arca de Noé. As pretas lá de casa diziam que aquilo era a cidade do Rio de Janeiro no tempo em que Christo andou pelo mundo; aquellas torres, umas eram da Candelaria, esta a de Sancto Ignacio do Castello, e aquella outra a da Penhaa montanha e Corcovadoe o lago era o do Passeio Publico !

Tinha o Barros um official de nome Paulino.

Dia 26 de Dezembro
O dia seguinte do Natal era o dia das indigestões, e os boticarios não tinham mãos a medir vendendo camomilla, oleo de ricino e noz vomica .

A meninada ficava de cama e de dieta um ou dous dias, findos os quaes estava-se prompto para a patuscada. Continuavam as cantatas ou trovadores da rua; mais tarde apparecia o bumba meu boi, as dansas dos pastores e entrava-se no Anno Bom e Festa dos Reis .

Dos trovadores desse tempo conheci o Anselmo, que ao som do violão era capaz de cantar um dia inteiro modinhas, todas differentes. São de seu repertorio: A saudade roxa, mimosa flôr -Qual quebra a vaga do mar - A gentil Carolina - Dizem que vejo e não vejo - Si os meus suspiros pudessem - Mandei um terno suspiro - Os mandamentos da lei do amor, etc ., etc ., etc .

Havia um grupo de artistas que eram insignes nas serenatas desse tempo. Era seu chefe o Goiano. Certa noite para poderem sair era preciso arranjar quem tocasse o bombo. Por acaso appareceu um estudante de Medicina, membro honorario do tal grupo. Acceitou, com a condição de não entrar em casa conhecida.

Apezar de nunca se ter visto em taes apuros o nosso futuro doutor ia indo menos mal; percorreu o grupo de foliões várias ruas e elle, meio occulto entre os companheiros, obedecia á batuta do mestre; entraram e tocaram em várias casas, sendo muito applaudidos.

Ao subir, porém, o farrancho as escadas de um sobrado, na rua Larga de S. Joaquim, oh horror! estava sentado no sofá da sala, rodeado por muitas moças, um professor da Eschola de Medicina !

Tirar a corrêa do pescoço, atirar com o zabumba e fugir pela escada como cão damnado, vendendo azeite ás canadas, foi obra de um minuto. Na rua um policia quiz agarra-lo. Para livrar-se embarafustou por uma casa, no fundo da qual, em um quarto, estava uma velha. tomando banho! O infeliz via por toda a parte o bombo transformado em bomba, e uma reprovação certa, si tivesse sido reconhecido.

E tinha razão. Um seu contemporaneo havia sido reprovado, porque tocava rabeca em novenas, para poder estudar; outro, porque um lente em um theatro o tinha visto vestido de roupa de côr; outro, porque ao avistar o professor não tirou o cigarro da bocca. Cachimbar. como dizia o velho Jobim, era o maior de todos os delictos, e quando se queria chamar um moço de máu e de perverso «até dizem que já fuma» era a ultima, era a suprema injuria.

A Noite de Natal no Rio de Janeiro
- 1894 -

No ano de 1894, cerca de 40 anos depois dos principais acontecimentos descritos acima, um escritor dedicou uma das suas valiosas crônicas à Noite de Natal no Rio de Janeiro, cujo texto, transcrevo a seguir:

A noite de Natal no Rio de Janeiro era a festa das crianças e das mais; dos venturosos da sorte e do escravo, que já tinha quem lhe recolhesse as lágrimas afflictas e os gemidos sem eco na treva das senzalas.

A família, preparada para os júbilos da igreja, associava-se pela abstração às venturas da Virgem Mâi, no estabulo de Bethlem, quando, embalando o seu recém-nascido, recebia as oblações dos pastores em tropa, que acudiam das aldeias vizinhas.

N´esta capital e nos subúrbios as festas do Natal eram amplas e características. É que nem sonhávamos de pedir ao estrangeiro – no paiz das florestas – a tola e rachitica arvore do Natal, para symbolizar as galas de que se revestirá a natureza no nascimento d´Aquelle que vinha em nome de Deos.

O acontecimento reinava por toda a parte; ricos presentes destinavam-se com prodigalidade; os escravos, de roupa nova, cumpriam alegre tarefas; os presepes armados; as casas illuminadas no interior; os móveis bem espanados, os vestidos da seda estendidos sobre as camas, annunciavam a próxima festança, que comelava logo ao escurecer.

missa do gallo punha em revolução casas inteiras; velhas, moças, meninos e rapazes, ninguém dormia, ninguém os occupava com outra cousa qualquer.

Certa parte da população, porém, preferia armar o throno do Menino, passar a noitada entre cantigas e dansas, visitar o presepe do Barros.

Pompas religiosas

nos conventos as pompas religiosas que iriam ter lugar, faziam sahir fora dos hábitos regulares as communidades, os vigários, o pessoal subalterno do culto. As capellas, com uma escadaria de velas de cera, deviam projectar grande luz no ambiente do altar-mór, todo enfeitado e acceso, em que era de rigor colocar-se o Deos-Menino, deitado e nusinho, em um leito de ouro e de pedras finas.

Vozes de animais

E uma orchestra de repiques de sinos retinia nos ares feridos pelos gritos das multidões em grupos, que imitavam nas ruas o canto do gallo, a voz dos animaes, que, segundo a lenda, exhultavam de prazer com o nascimento do Messias.

A noite de Natal, que o era também de liberdade e de innocentes prazeres, teve no Rio de Janeiro uma característica firme, de que conservam memória personagens authenticas.

A música de véspera

A partir das 8 da noite de 25, quando as estrellas erguiam nas alturas as suas lâmpadas de diamantes, um rumor vago, indefinido e as vezes harmoniosos, circulava na cidade. Grupos precedidos por tocadores de violão e cantadores de modinhas seguiam à aventura, isolando-se em pontos variados o som de uma frauta que fazia a parte cantante, de um cavaquinho estridente, de uma guitarra afinada e de plangentes arpejos.

Os Músicos

Ao longo das ruas debruçadas às janelas abertas das rotulas, muitas pessoas avistavam-se, de espaço a espaço, apreciando as dansas em casa das famílias da classe proletária, ou palmejando no fim dos lundus e modinhas cantados aqui e além, pelo pardo Anselmo, o Alves, o Cunha, o Juca Cego, o Dr. Clarimundo, o Leandro, o crioulo Trovador, o Zé Menino e trinta outros menestréis populares.

Nos intervallos, os convidados iam para dentro, geralmente aos pares, os cavalheiros trocando amabilidades com as suas damas, ageitando a luva de pelica, rindo dos incidentes de uma quadrilha.

Lá, a grande ceia estava preparada, logo que cada um tomava assento às mesas extensas e, por vezes emendadas.

No máxima totalidade, as reuniões em casas térreas eram entre gente de casta, isto é, de homens e mulheres de cor, comparecendo um ou outro portuguez, personagem infallivel nos dias risonhos ou nefastos dos brasileiros em qualquer condições.

O ritual do blinde

E as hurrahs ferviam, as saúdes trocavam-se, e o pardo ou o crioulo que presidia a mesa, notava-se de fora, encasacado e de pé, orando, gesticulando, levantando o braço e suspendendo acima da fronte a taça espumante do champagne.

Um Canto de Galo

N´isso, os magotes de povo, os escravos que obtinham licença para divertir-se sulcavam os caminhos, amotinados, imitando o cacarejar do capão do terreiro, o canto prolongado do gallo musico.

Capela do Menino Deus

Na rua de Matacavallos, a capella do Menino Deus agremiava innumeras famílias que, desde as Ave-Maria, a freqüentavam.  
Capela do Menino Deus em dia de festa

Emquanto, já por cerca das dez ou onze horas, essas scenas se passavam, levas de gente seguiam pelo largo do Rocio, em direitura à rua dos Ciganos, que se ostentava brilhante, atravessada por cordas enfiadas de bandeiras, illuminada, coberta de folhas, e animada pela música que ticava em um coreto.

Gyrandolas animadas subiam ao ar, e o povo, com chapéos e bengalas, desviavam as flechas que sibilavam cahindo.

O Presépio dos Barros

Na rua dos Ciganos, tinha a sua grande marcenaria o velho portuguez Francisco José de Barros, marcenaria que occupava as cinco portas de sua vasta casa abarracada.

Nas proximidades do Natal, o estabelecimento desapparecia, por isso que o presepe instalava-se na metade anterior da officina.

Durante trinta annos (desde cerca de 1860) o velho Barros armava o seu tradicional presepe, que atrahia toda a cidade e subúrbios.

O espaçoso salão, para o qual entrava-se por uma única porta lateral, era decorado sem elegancias, mas com originalidade; dos tectos viam-se anjinhos pendurados de barriga para baixo, a um lado uma especie de tribuna em que cantavam as filhas do proprietário os versos do Natal e Reis; o lugar destinado á orchestra conhecia-se por uma pequena estante de pinho, sobre a qual havia papeis de musica e velas accesas de carnaúba em rasos castiçaes de folha de Flandres.

O presepe, que formava o fundo, de um lado a outro, e que subia até o teto, era constituído por peças que se desarticulavam à vontade, sendo as figuras, as casas, os repuchos, as fortalezas, a historia toda feita pelo Barros, o exclusivo santeiro, marceneiro, pintor e architecto do seu presepe de variadissimas quinquilharias.

Dizem que o motivo que levara o bom do velho a festejar com a lapinha o nascimento do Deus-Menino, fora um voto, uma promessa.

Mas, quanto explendor ! quanto talento de artistas aproveitando n’aquella obra que pasmava as crianças, entretinha devotamente a população inteira, causava assombro aos entendidos no assumpto !

Nas noites de Natal, Reis e Anno Bom a rua dos Ciganos não podia ser mais bella. As pompas exteriores reproduziam-se, as meninas cantavam, a música tocava, e n’essas noites e aos domingos o presepe ficava exposto ao publico, das 6 horas á meia noite.

E quem não se lembra do Barros ! daquelle velho baixo, de barba raspada e sem gravata que, vestido de brim alvo e engommado, obsequiava a todos com a mesma meiguice, com o mesmo sorriso, feliz e innocente!...

E aquelle operario obscuro tinha um ideal; aquelle portuguez de outros tempos amava a este país e às suas instituições! à excepçao das noites em que o seu presepe só recebia a visita de escolhidas famílias e do público, as demais elle reservava a um benefício, cujo producto entrava para a casa da Imperial Sociedade Auxiliadora das Artes Mecanicas e Liberaes, à qual legou por sua morte um valioso predio.

Na vespera de Reis os ranchos iam cantar naquelle presepe as suas cantatas diante do Menino, deitado em um berço de palhas, junto à Santa Virgem e São José, acercado de pastores e dos reis magos, vindos do Oriente.

E o povo atopetava a rua dos Ciganos, e duas phrases se escutavam soltas, aqui, além, mais longe: - Missa do gallo, e presépe do Barros.

A Missa da Meia Noite

E um repique de sinos formava um concerto aéreo como um coro de anjos, annunciando a missa da meia-noite...

As sedas farfalhavam ao leve passo das moças bonitas; o Menino-Deos, em sua peanha, com seu cajadinho de ouro, prendendo um carneirinho, que pastava no montículo, avultava de um móvel de jacarandá; e as crianças, as senhoras, as moças, as crias, pomptas para a Igreja, murmuravam impacientes pela demora dos mais velhos...

Muitas vezes, de repente, sahindo do fundo de uma cama, como se resurgira de um túmulo, um indivíduo magro, coberto de cans, recalcando no peito uma tosse héctica, adiantava-se tremulo, abria o abraço, passeiava o olhar por sobre a imagem, e, risonho e feliz, contemplava por instantes a família reunida, que era ditosa e tinha fé, no maior dia da christandade !

Esse velho era um pai ou um avô, a quem a religião emprestara n´aquelle instante a saúde perdida e o vigor dos dias antigo.

E partiam...

Os alaridos acordavam os échos, as aves nocturnas libravam-se às tontas tangidas das torres, as famílias desfilavam com o seu cortejo de negrinhas e muleques; os adros dos conventos,das parochias, dos sumptuosos templos como o Carmo, São Francisco de Paula, Candelária e Sacramento ficavam compactos de fiéis, de devotos das missas cantadas.

Missa na Igreja de São Sebastião
(*1583 - +1922)

Na Capella Imperial, apenas batia meia-noite, a multidão quase que não se podia mexer no corpo da igreja; os musicos appareciam no coro, afinavam os instrumentos; as sentinellas, postadas em determinados logares, descançavam a espingarda, cujas bayonetas espelhavam aos jorros da luz.

Então, as ondas do povo afastavam-se à direita e à esquerda, offerecendo passagem ao santo bispo, que ia officiar a missa. Vestido de capa de um tecido de ouro, vergado pelos annos, com a fronte coroada de mitra, sustendo o báculo, o príncipe da igreja caminhava lento, precedido de monsenhores e cônegos, de thuriferarios e acolytos, de sarcedotes e diáconos, de cyrios acessos e cantando sagrados cantigos.

E a missa de Natal celebrava-se magestosa, porque nascera o Senhor, que seria chamado o Admirável.

Nas diversas Igrejas, não obstante serem as pompas litúrgicas menos grandiosas, não deixava de ser subido o piedoso fervor.


UM FUTURO DIFÍCIL DE ACREDITAR
1905-2010

O Natal de 2010

Como será o Natal em 2010?

Nem Wells, nem Bellamy, nem Allatole France, nem os outros cultores, de menor peso, desse genero de sport metaphysiço que se compraz em desvendar o futuro lembraram-se ainda, que me conste, de idear o que será a festa do Menino-Deus, quando houver passado um seculo sobre as nossas tristesas, as nossas alegrias, as nossas esperanças, os nossos dissabores de hoje.

Persistirá ainda, no seculo posterior ao do radium, o costume de celebrar annualmente o suave mysterio do Natal, com o seu cortejo de lendas consoladoras que se espalham docemente sobre a humanidade, fazendo como que uma tregua nas lutas quotidianas para unir as opiniões as mais desencontradas, afim de contemplar a mais bella creação que até hoje tem produsido as religiões ?

Ou, chegada a humanidade ao estado positivo que imaginou Augusto Comte, banidos da cogitação humana todas as preocupações theologicas ou metaphysicas, ninguem mais aceitará senão o que for experimentado ou demonstrado, e não haverá mais illusões de especie alguma, sobre qualquer dos campos da cultura humana?

Si quisermos acceitar como formulada civilisação futura a uniformisação dos costumes dos povos, segundo o typo dominante na chamada civilisação occidental, a consequencia logica é que as velhas tradicções locaes que acentuaram a individualidade de cada povo, hão de fatalmente desapparecer, para ceder o logar ao typo vago, incolor e apagado que constitue o homem civilisado de hoje, disfarçando o seu scepticismo com o sorriso de uma ironia amavel, sem as ingenuidades que fazem a felicidade dos povos, sem os arrancos de fervido enthusiasmo que constituem a verdadeira dynamica das sociedades.

Quando a sciencia não tiver mais segredos para o povo, quando não houver mais dlfferença. entre o homem culto e o homem ignorante, e forem banidos da imaginação popular os fantasmas que actualmente tanto aterram e deliciam os povos, a que lendas recorrerá a humanidade para suavisar, os poucos instantes da vida, como o actual, em que o espirito, fôrro ao ramerrão da vida quotidiana, foge pelo espaço fóra procurando uma illusão em que repouse dos dissabores do mundo conhecido ?

Quando vejo as creanças de hoje, confiantes na fé que nós não temos mais, cheias de illusões para nós de todo perdidas, aferradas ás crenças que nós não temos a coragem de lhes tirar do espirito, pergunto a mim mesmo si os meninos actuaes, quando chegarem á virilidade terão o heroismo de fechar os olhos a seducção da lenda, e educarão desde logo os seus filhos inteiramente emancipados das suaves creações que nos enlevaram a infancia e ainda hoje embalam a dos nossos filhos.

Quando nós, os livres pensadores de hoje; volvemos os olhos para os nossos longinquos primeiros annos, vemos um lar tranquillo, uma figura de mãe cheia de bondade guiando os nossos primeiros passos da vida, e a familia, possuida da mais suave uncção, celebrando amorosamente a festa cujos vestigios nos ficaram para todo o sempre gravados no coração, a despeito de todas as negações que conhecimentos posteriores nos implantaram no espirito. Revendo nos filhos estes mesmos suaves sentimentos, nós temos que transigir com as exigencias de uma fé que já não nos domina, e, pela mais sublime das hypocrisias fingimos, acreditar nas lendas a que sómente podemos oppor a mais crúel das realidades.

As creanças que hoje nascem podem pois, graças á nossa tolerancia, conservar o conjuncto de illusões que nos embalaram a meninice. Terão porém, a mesma força de vontade que nós para transmittir as futuras gerações o mesmo ponto de vista ? Ou, chegadas á idade madura, perceberão que atraz dos nossos condencendentes sorrisos já se advinhava o rictus amargo da descrença ?

Imaginemos, um momento, que a sciencia e a civilisação hajam nivellado todos os espiritos, e as creanças logo com as primeiras letras tenham recebido as bases de uma concepção scientifica do Universo.

Que esperarão ellas achar nos sapatinhos em que o velho Natal tinha o costume de collocar os presentes?

Em primeiro logar cabe observar que, nos paizes em que as creanças poem os sapatos perto da lareira, tal não será mais possível. pois o aquecimento das casas pela electricidade ou por outros
meios hoje de nós desconhecidos, dispensará completamente a chaminé. Si a noção de propriedade individual houver desapparecido do mundo, creança nenhuma esperará receber um presente, pois saberá então que tudo pertence a communidade. E, despovoada a amplidão das entidades mythologicas que ainda existem para as creanças de hoje, as que vierem daqui a cem annos hão de saber que tudo está sujeito á fatalidade das leis cosmicas, que nenhum phenomeno tem causas sobrenaturaes, e que não é possivel andarem os anjos, pela calada da noite a encher de doces e brinquedos os sapatinhos das creanças adormecidas.

Nascidos na época em que tudo estará calculado mathematicamente habituados a achar a incognita de todas as equações, os meninos de então serão iguaes em penetração aos homens de hoje, e olharão impavidos a immensidade severa, despida emfim das sombras que hoje tanto nos apavóram. Sonhos, crenças, lendas... vãs futilidades que o seculo vinte terá acabado de destruir.

O Estado reduzido o apuro de uma machina bem lubrificada, a industria e o capital occupando o seu logar mathematico na entrosagem da vida nacional, a precisão geometrica regulando todas as manifestações do pensamento humano, tudo previsto, tudo calculado, tudo regularisado, que logar restará para a expansão das doces illusões em que hoje ainda nos comprazemos ?

Si forem estes os sentimentos que dominarem o mundo de então, que se fará por occasião do Natal?

Pobres creanças de 2010 ! Como eu voz lamento!

Rio de Janeiro, 1905 - SOUZA BANDEIRA.


UM SONETO DE NATAL
1905

Depois desta tempestade, do mundo tenebroso que se esperava para as nossas crianças do ano de 2005, fecho com um soneto dedicado ao Natal, escrito pelo cronista Luiz Edmundo, há exatamente 100 anos, em 1905, devidamente enquadrada (veja após o soneto) em uma típica ilustração daquele princípio do século XX.

Cala-se o mundo, há um luar de mysthicos palores.
O vento lembra uma harpa a tocar de surdina
Brilha pela extensão do céo da Palestina
N´um prenuncio feliz, a estrella dos pastores.

A vida acorda e vem do cálice das flores
A alma do homem que sente um fulgor que o fascina
A ovelha bala, o boi muge, o pastor se inclina,
Há um balsamo por tudo a amenisar as dores.

Jesus nasceu; a fé que os corações ampara
Desce às almas buscando os íntimos refolhos
Como os raios do sol n´uma lagoa clara.

Maria porque vê Jesus pequeno e langue
Poe um riso feliz na doçura dos olhos
Que hão de chorar, depois, as lágrimas de sangue...  

Luiz Edmundo – 1905

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